sábado, 31 de dezembro de 2011

A galinha que botava batatas


Editora: Fundação Dorina Nowill para Cegos
Categoria: Infantojuvenil
ISBN:
1ª edição: 2011
Encadernação: Brochura
Formato: 21 x 21 32 págs.
Ilustrações: Paulo Branco

• Livro publicado através da parceria entre a AEILIJ e a Fundação Dorina Nowill para Cegos. Edição em braille e com fonte ampliada.
• Com versão em áudio.

Miranda é chamada no galinheiro para desvendar um mistério: a galinha Josefina não botou um ovo e sim uma batata. Com sua mala de detetive, a menina começa a investigação, faz anotações, segue pistas até chegar à solução do enigma.

O Tango da Vida


Editora: Paco Editorial (1a ed.) /
Celacanto (2a ed.)
Categoria: Contos
ISBN: 978-85-8148-000-8
1ª edição: 2011
Encadernação: Brochura Formato: 14 x 21 80 págs.

Ao adentrar O Tango da Vida, de Simone Pedersen, percebemos estar diante de algo que de fato é sintetizado pelo tango: ao percorrer suas páginas, deparamo-nos com agressividade, tristeza, drama, paixão. Como no tango, como na vida.

A cronista madura, que extrai seus instantâneos da realidade circundante, colhe seus exemplos de situações do cotidiano, que conduzem a algo maior. Cada personagem, a seu modo, encarna um papel fundamental no drama da existência humana.

Um elemento que perpassa os textos consiste na busca de uma felicidade que se sabe ainda mais intangível, visto que não se afigura como mera oposição da infelicidade. Como buscar aquilo que se desconhece? Édipos em meio ao mundo, seres que nascem “sem permissão”, sem nada que lhes legitime o direito de existir. Mas que resistem, pois sempre haverá a música redentora, a que salva, a arte libertando e abrindo perspectivas. Árias na aridez. Como no tango, como na vida.

Tatiana Alves
Doutora em Literatura

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ANUNCIARAM E GARANTIRAM - Crônica de fim de ano. Ou do fim do mundo.


Autor: Maurício Veneza

Mesmo que vocês não conheçam a interpretação original da Carmen Miranda, devem se lembrar, graças a regravações recentes, de uma música do Assis Valente que começava assim:

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”

A letra falava de alguém que, diante de uma destas profecias sobre o iminente fim do mundo, mandava as convenções sociais às favas (expressão da época). Caía na gandaia (outra expressão antiga) e depois, não tendo se concretizado o vaticínio, tinha que arcar com as consequências:

“Beijei na boca de quem não devia
peguei na mão de quem não conhecia
dancei um samba em traje de maiô
e o tal do mundo não se acabou.”

Pois é, tenho boas e más notícias. A boa é que 2012 está às nossas portas; a má é que em 2012 o mundo vai se acabar. Pelo menos é o que afirmam alguns especialistas em interpretação do calendário maia (temos especialistas para tudo hoje em dia). Uns, como o cineasta Roland Emmerich, levaram a sério. Se ele não acreditasse que o mundo vai se acabar em 2012 – e com ele os críticos – não teria tido a coragem de levar às telas aquele filmeco sobre o tema. Outros, como eu, deram risada. Imaginei uma daquelas belas moças do tempo do noticiário, apontando para um mapa-múndi e dizendo, em voz pausada:

“Tempo instável, sujeito a chuvas de meteoros no fim do período, enchentes de lava e tsunamis...”

Posso apostar que não vai acontecer (se eu perder a aposta, não deixem de me cobrar!). Em minha longa existência ouvi várias vezes o anúncio do fim do mundo. Neste mesmo ano de 2011, pelo que disseram, o mundo deveria ter acabado umas duas ou três vezes. Em outubro, espalharam até outdoors, especificando com exatidão a data do evento. Só faltava  o destaque: “única apresentação”. Suponho que tanta divulgação fosse para evitar que alguém, por esquecimento, descuido ou falta de espaço na agenda, deixasse de comparecer ao espetáculo.

Fico pensando como estes dedicados profissionais do alarmismo têm a cara-de-pau de sair à rua no dia seguinte às suas previsões sem um saco de papel na cabeça. Talvez disponham de uma eficiente assessoria de imprensa, capaz de emitir um comunicado salvador, preparado de antemão, mais ou menos assim:

“Lamentamos informar que, por motivos de força maior, o fim do mundo foi transferido para data ainda não definida, a qual, assim que possível, será comunicada a todos os interessados, etc., etc.” e terminando por “Contamos com a sua compreensão”.

Talvez, como nos livros do Douglas Adams, o  mundo já tenha acabado, só que ninguém notou. O certo  é que nunca faltarão pessoas que, ao ver os preços no mercado ou ler a última fofoca sobre os famosos da TV, porão a mão na cabeça e dirão: “É o fim do mundo!”.

O bom é que também não faltam pessoinhas como o Pedro, meu primeiro neto, que chegou às vésperas do Natal. Para estas, o mundo está apenas começando.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O Rei Tempo


Que peso é esse nas minhas costas, senão os anos que foram me curvando enquanto eu me curvava perante sua figura majestosa?

O tempo é um bom rei. No começo se impõe com vigor, nos faz correr para alcançá-lo, nos ensina a mensurá-lo em aniversários, efemérides e despedidas. Rege nossos caminhos, nos obriga a tomar decisões quando jovens que afetarão todo o nosso futuro, sem termos a menor noção do que nos aguarda.

Contudo, quando amansamos, ele passa a mão em nossos cabelos brancos e nos mostra que ainda podemos desfrutá-lo. Aprendemos o milagre do pão. Multiplicamos nossos momentos bons. Descobrimos o mistério da felicidade, ou ao menos, como evitar muitos momentos infelizes.

Priorizamos as verdades sem nos importarmos se elas têm dentes navalhados. Reconhecemos o valor dos amigos. Detectamos superficialidades de longe e buscamos abrigo no conteúdo da companhia de poucos. Sonhamos, sim, nunca é tarde para sonhar! Sonhos que tem os pés nos chãos e caminham decididos pelo firmamento.

E amamos. Amamos muito mais. Amamos sem fronteiras, sem cadeados, sem fantasias. Amamos, tão profundamente, que sabemos o momento de guardar todo o nosso amor em uma pequena caixa de veludo marinho, com um lindo laço de cetim vermelho. Colocamos no fundo da gaveta, embaixo de sedas e rendas, ao lado de um sache com perfume de rosas.

Todos os dias, abrimos a gaveta ao amanhecer e da pequena caixa tiramos forças para seguir mais um dia, com o coração aquecido por lembranças embaladas em eternidades.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ricardo de Benedictis comenta "Fragmentos e Estilhaços"


RICARDO DE BENEDICTIS

Presidente da APOLO - Academia Poçoense de Letras

Tirei maravilhosas impressões do livro "Fragmentos e Estilhaços", da escritora paulista (natural de São Caetano do Sul) - Simone Pedersen; li os poemas, todos de excelente lavra, inspirados pela alma sentimental da autora que deixa aflorar seus melhores instantes. Também li crônicas e contos alternadamente e concluo, ao encerrar a leitura do livro por inteiro, que trata-se de uma obra auto-biográfica, tantos são os assuntos da vivência da autora, explícitos de forma tão romanticamente bela.

Gostaria de dizer a você, Simone Pedersen, que muito nos honra tê-la conhecido através dos seus textos. Você é uma escritora verdadeira, na acepção da palavra. Seus textos são como pétalas de rosas a caírem à nossa frente, a cada palavra bem colocada e período descrito. Lê-los nos oferece o verdadeiro prazer da leitura, que só é possível quando estamos degustando com a mente o universo criado ao seu redor. Há muito não me deparo com obra de tal valor literário. E eu leio, pelo menos um livro por semana, há anos! Daí porque, quero expressar-lhe o que de melhor pude perceber do seu magnífico estilo e do tratamento tão próprio da nossa vernácula. Textos curtos ou não muito longos que nos transportam para onde você estava quando os criou. Isso é o verdadeiro papel do escritor: fazer o leitor viver e sonhar em sua obra, durante e depois da leitura, em reflexões e voos encantados.

Também faço menção de elogios ao ilustrador Paulo Branco.Peço-lhe que passe para ele as minhas positivas impressões sobre o seu magnífico trabalho, tanto no livro em tela, quanto nos livros de Poesia com ilustrações e desenhos muito interessantes e criativos. 

Parabéns, querida amiga e glória a Deus por você existir.

Continue a escrever assim e em breve estará entre as estrelas da nossa rica literatura.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Mais um...


Mais um ano, novo ano, ano novo...
Mais um mistério, um suspiro, um sorriso...
Mais uma  batalha, uma ferida, uma lágrima...
Mais um início, recomeço, novo enredo...
Mais um final desconhecido no meio do nosso caminho.

Mais um ano, ano novo, novo ano...


A única certeza que tenho é que em 2012 eu farei a minha 

parte o melhor possível, mas o que acontecerá amanhã, hoje 

ainda ou nos próximos anos, tem sempre sido uma surpresa e

 seguramente acontecimentos inesperados nos abraçarão no 

próximo ano... Torço apenas que todos tenhamos mais 

acontecimentos bons...

E que a vida continue a nos surpreender!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Premiações em 2011


Premiações:
Concurso Internacional de Literatura – União Brasileira Escritores – RJ - Menção especial para o livro de crônicas “Fronteiras” a ser lançado em 2012
VI Prêmio Arthur Bispo do Rosário – SP - crônica e poesia
Um poema em cada árvore – Instituto PSIA – Governador Valladares -  MG – poesia
Concurso Pérolas da Literatura – Guarujá – SP – conto - 1o. lugar
Mapa Cultural Paulista 2011/2012 – Vinhedo -SP – conto e crônica
Varal de Poesias da UNIFAMMA - Maringá - SP – poesia
Varal de Poesias de Nova Odessa - SP – poesia
Concurso de poesias "Amor demais" – poesia
Prêmio Cultural Landa Lopes - poesia - e-book
Concurso Literário da ACL - RS - Contos infantis - 2o. lugar

Antologias:
Editora Caki Books - contos “Trem da História”
Editora Litteris – infantil “Novas fábulas brasileiras”
Editora Abrace – poemas “Juegos Florales” – Uruguai
Prêmio SESC de Contos Infantis
Prêmio Alt fest – Festa Literária Internacional de Olinda – FLIPORTO – poesia
Prêmio Universidade Fluminense Federal de Literatura – crônica, conto e poesia
Revista Kyrial da PUC - Campinas - SP - conto

Consto como verbete na última edição do “Dicionário de Mulheres Escritoras” da historiadora e pesquisadora Hilda Hübner Flores, do Rio Grande do Sul.

Pequenos contos: horror, fantasia e poesia



SOLIDÃO

O vinho caríssimo escorre pela garganta sedenta preparando-o para a próxima degustação.
Do outro lado do bar, a moça pensa:
“- Com esse me deito, estou morrendo de solidão...”
E ele, regozija em pensamentos carnais: “Hoje me deleito, carne nova, sangue fresco!”
Horas depois, ele a deixa desacordada sob os lençóis lilases do seu quarto rosa. Antes de sair, coloca um objeto de sua antiga penteadeira – uma boneca de porcelana – aninhada em seus braços.
Entra no carro, com o sangue-tinto ainda escorrendo pelo queixo.


A NOITE, O CÉU E A MORTE

Abro a janela e percebo que a noite está zombando de mim.
Ela escondeu todas as estrelas sob sua túnica negra.
Só vejo morcegos voejando no jardim.
Irada, penso em lhe exigir que devolva os diamantes que cintilavam em minha vida. Mas me calo.
Tenho medo que  ela responda que eu não os mereço.
Tenho medo que ela mande mais morcegos.


DIVÓRCIO

Civilizadamente assinaram os papéis e se despediram do juiz.
No estacionamento, ele a avistava na calçada. “Finalmente. Estou livre.” Pensou enquanto acenava para ela.
Ela, compenetrada, aguardava os carros passarem para atravessar a rua. Quando viu uma moto, titubeou. Só decidiu atravessar quando um caminhão estava próximo demais para poder frear.
Só teve tempo de gritar o nome dele. O “Eu te amo”  ficou apenas na sua vontade.
No diário dela, o desabafo: “Ouvi-o dizer que pretende me matar. Assim poderá casar-se com aquela puta. Eu o amo demais. Não quero que ele me esqueça nunca.”


OBSESSÃO

Depois que romperam, todos os dias o telefone tocou exatamente à meia-noite. Ela sabia quem era. Conhecia a respiração ofegante. Ficava a escutá-lo por infindáveis minutos, somente para a consciência permitir-lhe dormir em seguida. O motivo ela nem sabia mais qual fora. Ciúme doentio, agressões verbais, humilhações públicas. Talvez, a culpa fosse do destino, como lhe dizia a cartomante. Morar no interior seria a última tentativa. Precisava se livrar da obsessão dele. Não desse certo, já havia se decidido a resolver a situação, ingerindo pastilhas de veneno para ratos. Saiu de madrugada para não ser vista. Quando entrou na estrada, observou pelo retrovisor que um carro se aproximava, ao mesmo tempo em que o celular tocava insistentemente, mostrando o nome dele no visor. Descontrolada, entrou num posto de gasolina à procura de ajuda. Saiu do carro aos gritos e foi acudida pelos frentistas, que não conseguiam entender o que ela balbuciava. Esclareceram que nunca haviam visto o carro que a perseguia, quando a polícia chegou. No celular, não havia registros de chamadas há treze dias. E treze foi o número de pílulas que ela ingeriu sem que ninguém percebesse enquanto abriam o porta-malas, para nele encontrarem um corpo esfaqueado em estado de decomposição. Entre os ossos e restos de carne apodrecidos da mão do cadáver, havia um celular emitindo sinal de ocupado.


CONTO DE FADAS

A noiva chega correndo. Linda! Olhos de esmeralda!
Tão fina e educada! Branca de Neve!
Impaciente, o noivo a espera.
Nos degraus da igreja, ela perde um sapato branco.
Mancando, chega ao altar.
Não sabe que se transformará na Gata Borralheira de olhos roxos.


MULHER ARANHA

Linda! Como podia ser tão linda? Ele perguntou-se ao vê-la de negro, em um vestido longo e esvoaçante que denunciava um corpo esbelto, seios firmes e convidativos em um decote pouco comportado. As mangas largas não escondiam a cintura marcada. Linda, como podia ser tão linda? Ele ainda perguntava-se quando adentrou sua morada, sem compreender como ela havia se interessado por ele, alguém tão sem predicados espetaculares.
Nervoso, teve medo de não satisfazer aquela rainha. Mas ela teceu uma teia de sedução, com música romântica, velas acesas e penumbra. Despiu-se, lentamente a provocá-lo, e ele esqueceu seus medos, realizando todas as volúpias dela e dele.
Extasiado, olhava para o teto e pensava: “Como pode ser tão linda?”. E divagava sobre o que poderia ela – a linda dama de negro – ter visto nele. Nesse momento, ela ressurgiu da cozinha com vinho branco e um pedaço de bolo de chocolate. Ele mal pôde acreditar. Além de tanta beleza e sedução, estava ali – mulher, esposa e mãe – a alimentá-lo após a exaustão.
O bolo desceu-lhe a garganta, acariciando e envenenando o seu ser. Seus olhos reviravam enquanto balbuciava: como podia ser tão linda...


A VIÚVA

I
A viúva chora desolada.
O coveiro mostra, indiferente, as marcas de unha na tampa do caixão.
A viúva desmaia.

II
No dia seguinte, ela vai a uma escola em Manaus.
Inscreve-se no módulo avançado do Curso de Plantas Tropicais.
E sai gargalhando pelo beco imundo.


AS ROSAS E O VENTO

O universo conspirava para que aquele encontro fosse perfeito. Eles combinaram de se encontrar num parque repleto de flores. Queriam assistir ao pôr do sol, que se despediu do dia em tons vermelhos e alaranjados.

Enquanto caminhavam, a noite silenciou em respeito. O vento, ansioso, dançava sublimemente ao redor do casal  em celebração. Eles sentaram-se lado a lado, com seus corpos tocando-se levemente. As estrelas os observavam, refletindo neles cintilantes luzes. Subitamente, ele roubou-lhe um beijo, e o vento parou ruborizado. Como dois adolescentes, fugiram das platéias e procuraram um lugar discreto, onde pudessem se beijar até que não soubessem mais onde começava um e terminava o outro. Uma estrela cadente desacelerou a passagem para poder observá-los. As rosas voltaram-se para a direção deles. As hortênsias curvaram-se, impressionadas com a intensidade daquele encontro. Arrepiadas, exalaram seu melhor perfume, que o vento soprou, presenteando-os. Deitaram-se na grama, como se ela fosse um ninho coberto por lençóis de cetim. A lua, encabulada, cobriu os olhos com nuvens e deixou o casal se amar... Até que juntos explodiram e transformaram-se em um cometa que rasgou o céu e nunca mais foi visto.


O INEXPLICÁVEL

O jardineiro rega as flores na praça. Crianças brincam. Adolescentes passeiam. Aninha conta sobre o primeiro beijo na noite anterior. As amigas aplaudem. De repente, toca o celular: a mãe ralhando pelo atraso para o jantar. Todas correm. Ela caminha sozinha para casa. Na esquina de casa, um senhor pergunta onde fica a igreja. Aninha reconhece o olhar do jardineiro da praça. Pergunta-se como ele veio parar ali. A cabeça dói. Ela cai em sono profundo. Quando acorda,  grita desesperada:

─ Mamãe, mamãe!

A mãe, acariciando seus cabelos, lhe pede para dormir novamente. Vira para o médico e pergunta:

─ Quando devemos contar que ela foi deflorada?


DEPRESSÃO

Hoje é um daqueles dias que acordei com a alma pequena. A imensidão da noite quase me sufocou. Não fosse o canto das maritacas voejando no jardim, eu teria virado ao lado e dormido o dia todo. Quando acordo, procuro no mundo dos homens o pote de amor até o fim do dia. Mas só encontro solidão. Meus pensamentos ecoam tão alto, no vazio da minha vida, que sou vencida pela desesperança.

Procuro forças para me levantar e sair de casa, apesar da alma pequena. Vou à cidade. Busco algo em algum lugar. Não sei o quê nem onde. Já passei da idade em que sufocamos as mágoas com compras inúteis. Persigo a felicidade alheia, na esperança de ser por ela contaminada. Entro em uma livraria de esquina.

Estou numa viagem além da minha ilha, onde vivo tão sozinha. Busco paz. Decido, então, escolher um livro e me sentar no sofá macio. Esqueço-me do sofrimento por um instante. A poesia acaricia meu coração, levando meus pensamentos a lugares repletos de beleza e magia. Preenche o vazio, que amanheceu em mim, com cores e perfumes em forma de versos. Volto à casa vazia e sinto lágrimas escorrerem pelo meu rosto marcado, mas são por contemplar as estrelas penduradas no varal da noite. Minha alma desencolheu. Adormeço, segurando as mãos de Drummond, sussurrando lindos poemas só para mim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Silêncio em 2012


O silêncio é uma conquista. Uma das mais difíceis. Falamos demais. Tudo tem que ser exacerbado hoje em dia. Temos demais. Esperamos demais. Sonhamos demais. Criticamos demais.

Eu sempre fui muito falante, e sempre me arrependi de falar demais. Pudera, quando jovem, queria ser advogada. Fiz Direito porque achava que estaria contribuindo para um mundo melhor. Coisa de jovem, que acha que pode mudar as pessoas. Sempre tinha uma opinião formada. Não havia espaço para adaptações. Nada era flexível. E aí veio a vida e começou a me ensinar que nada é tão matemático assim. Que eu não era infalível, logo não podia falar dos outros. Mesmo assim ainda falo de vez em quando. Depois me arrependo, mas não consigo não ter opiniões. E sempre acho que as minhas são as corretas. Difícil discordar de mim mesma. Depois quando percebo que estava errada, fazer o quê?

Consegui um pouco mais de equilíbrio hoje. A maturidade ensina. A vida ensina. Analisar os fatos somente pelo meu ponto de vista é perigoso. Quem me garante que não existe alguma informação importante que eu desconheça? Também sei que a palavra nunca não existe. É apenas uma metáfora. Nada é eterno. Tudo pode acontecer pela primeira vez, mesmo que não tenha acontecido por centenas de anos. “Ele não bebe”, mas pode começar a beber. “Ele não fuma”, mas pode começar a fumar. “Eu sou justa”, mas posso cometer injustiças. A vida pulsa, acontece, é inevitável. Como os animais nas florestas estão sujeitos ao acaso, nossas vidas também podem sofrer fatalidades ou mudanças bruscas. Quando o leão sai para caçar, ele vai devorar uma das gazelas. Aquela gazela poderá ser eu, um dia. Por que não? O que me faria melhor do que as outras?

Temos o livre-arbítrio, temos fatos predeterminados, mas não temos o controle da vida. Da vida dos outros. Se ao atravessar a rua eu olho dos lados e evito ser atropelada, não significa que não seja assaltada e morta na outra. Nesse caso, um atropelamento teria sido melhor.

Somos todos interligados, nossas vidas são afetadas pelas vidas dos outros, e os outros, como nós, são imprevisíveis.  Cada pessoa vive uma vida única. Passa por problemas únicos. Têm uma grau de ética pessoal. Por isso, eu silencio. Somente cada um conhece a sua vida. Eu mal dou conta de entender a minha. O que eu desejo para 2012? Mais silêncio e menos palavras afiadas. Mais amor e menos crítica. Mais ação e menos falação. Que cada um de nós cuide bem do seu jardim, sem compará-lo com o do vizinho.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Fantasmas


Com o passar dos anos,
A minha biografia amarelou
Como meus dentes.
A memória embranqueceu
Como meus cabelos,
O passado escureceu
Como o futuro.

Os filhos cresceram,
Casaram-se e mudaram-se.
O cachorro morreu,
O gato também,
Até o pó se retirou
Para lugares onde abrem as janelas.

A televisão antes me incomodava,
Agora preciso de aparelho para ouvi-la...
Minha única companhia.
Não tenho mais bagunça para organizar,
Não recebo visitas para me estressar,
Não gasto com pizzas nem refrigerantes,
Que sumiam nas mãos dos adolescentes.

Nem o telefone toca...
O despertador sim! Faço questão de saber que horas são,
Apesar de dormir menos horas com o passar dos anos
E estar acordada quando o dia amanhece e o galo acorda o relógio.
Tenho um rádio que fica ligado o dia todo,
As vozes dos radialistas afastam os meus fantasmas,
Que ficam espreitando, esperando
A hora que me deito.

É quando eles se aproximam,
Sentam-se na minha cama,
Seguram a minha mão e choram comigo.

O nome deles?
Arrependimento, fracasso e solidão.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Espírito natalino... Mesmo?

Sabem o que me entristece nessa época do ano? Ouvir frases do tipo: "Para quem não tem nada, ISSO está bom demais". Que generosidade é essa? Presentear crianças carentes com bolas de dez reais ou roupas de segunda qualidade ajuda mesmo? Nossos filhos têm armários cheios de brinquedos e roupas de qualidade. Para eles, nos damos aquela LEMBRANCINHA qualquer? Crianças carentes usam muito mais que nossos filhos, e depois passam a roupa/calçado/brinquedo para o irmão ou primo. Eles, sim, precisam de artigos de boa qualidade. Uma bola de cinco reais e chinelos de tiras eles já têm! Não penso em grifes. Penso em qualidade. Seu filho não usa um tênis de borracha dura, porque o menino de rua pode ter os pés machucados? Aquela camiseta que fura depois de duas lavadas, vc daria para seus sobrinhos? Uma menina que sonha com a tal boneca, que abre olhos, abre boca, vem de vestido bonito e ganha uma boneca dura, sem movimentos, de olhos pintados ficará contentinha, e vc se sentirá generoso/a porque fez uma doação, enquanto na sua casa as crianças abrem caixas coloridas com brinquedos que custam uma pequena fortuna? Isso é generosidade, espírito natalino? Caridade é dar ao próximo algo que você tira de você, não migalhas que iriam para o lixo ou roupas que não usa mais, porque você tem mais do que precisa. Comentar que gastou cinquenta reais com uma cesta de natal não abre os portões do paraíso para ninguém. Aliás, se comentar, mesmo que gaste cinco milhões não será chave de entrada ao piso superior. Quem comenta é político, o bom cristão não faz campanha eleitoral a cada gesto, não tira foto, não publica no jornal. A hipocrisia natalina me faz mal. Ninguém precisa esperar uma data certa para ajudar quem precisa. Irmãos carentes não comem só dia 25 de dezembro. Eles comem, sentem fome, sede, frio, medo, se decepcionam, sonham, sofrem o ano inteiro.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A hora de dizer adeus

Há momentos na vida em que é hora de ir embora. Quando visitamos alguém que começa a bocejar; quando, no hospital, a enfermeira entra para dar banho no paciente; quando o vizinho começa a gritar palavrões... Momentos em que, se não sairmos, seremos inoportunos e criaremos um desgaste desnecessário. 

Há momentos na vida em que é hora de ir embora, porque não estamos mais presentes fisicamente, mesmo que sentados no mesmo sofá. Em uma casa, há momentos em que temos que ir embora do cômodo e deixar a pessoa discutindo sozinha. No trabalho, pode chegar a hora de procurar outro emprego e deixar a carta de adeusmissão. Na escola, chega a hora, talvez, de dizer adeus a um curso e seguir outro. Na vida, há momentos de despedir-se de um caminho e reiniciar outro, sem olhar para trás.

Às vezes,  temos que dizer adeus ao dia  cinzento para reencontrarmos esperanças no amanhã. Temos que dizer adeus à noite de pesadelos para reencontrarmos os sonhos no amanhã. Nos relacionamentos, há momentos de dizermos adeus porque fazemos mais mal que bem. Nas ilusões, há momentos de nos afastarmos para enxergar a realidade. Na dor, há momentos de sofrê-la calado, para que o outro sofra um pouco menos.

Há também momentos na vida de dizermos não, de recusarmos convites, pois sabemos que são ocos. Há momentos na vida em que temos que preencher nossos vazios somente com nossos vazios, temos que permitir que o outro diga olá para alguém que possa oferecer mais que ausências e presenças vazias.

Há momentos na vida em que temos que dizer adeus como o sol se despede do dia, enfraquecendo as cores até sobrar apenas a escuridão. Há momentos na vida em que palavras não precisam ser ditas, nem mesmo “adeus”, pois já a escutamos em nossos corações. Há momentos na vida em que temos que dar a outra face, ouvir adeus duas vezes. Há momentos na vida em que é hora de dizer amém.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Vice-Versa de dezembro de 2011 - AEILIJ


Amigos!

Participam deste Vive-Versa  Simone Pedersen e Regina Sormani, escritoras associadas da regional paulista da AEILIJ

Simone Pedersen

Perguntas da Regina

1 - Simone, seu livro de poesias infantis “POETANDO E DESENHANDO", editado pela Komedi e ricamente ilustrado pelo Paulo Branco tem os animais como tema. Fale um pouco sobre o assunto.

R - Esse projeto surgiu de uma conversa com o Paulo. Ele leciona há trinta anos e queria fazer um livro para ensinar as crianças a desenhar, mas que tivesse um texto leve. Eu mostrei um conjunto de poemas sobre animais e a Komedi selecionou alguns. Essa edição já está esgotada e será lançado por outra editora agora em janeiro, para atender várias escolas que o estão adotando. É um livro que eu uso muito quando visito escolas porque rapidamente as crianças se interessam e interagem, contando dos seus animaizinhos e ouvindo as historinhas dos personagens que depois elas aprendem a desenhar.

2 - Você é formada em Direito e também se declara apaixonada por Monteiro Lobato desde criança. Em que momento a literatura começou a tomar conta da sua vida?

R - Quando eu era criança, havia apenas uma biblioteca na minha cidade, São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. Na biblioteca, havia apenas uma estante pequena com livros infantis. Foi ali que eu conheci a obra do Monteiro Lobato aos nove anos. Formada, mudei para a Dinamarca onde me casei, e lia muito em dinamarquês e inglês para aprender os idiomas. Depois morei na Itália por dois anos. Naquela época não havia internet. Quando eu vinha ao Brasil comprava dezenas de livros. Mas, foi só em meados de 2008, quando retornei definitivamente, que comecei escrever de forma sistemática e participar de concursos. A Literatura sempre fez parte da minha vida - independente do idioma-.Foi a minha companhia, principalmente, nos onze anos que morei longe da família.

3 - O que representa para você a coletânea FRAGMENTOS E ESTILHAÇOS?

R - Nesse livro eu publiquei contos, crônicas e poesias que obtiveram alguma premiação em concurso literário. É o meu primeiro livro para adultos,  seguido de “Colcha de retalhos” somente com poemas: um registro do início da minha vivência literária. Em breve lanço o “O tango da vida” com contos dramáticos e em abril o “Fronteiras” somente com crônicas.

4 -  Simone, você morou no exterior, viajou muito e atualmente escreve para um jornal, revistas literárias e blogs. Além disso, participa de concursos, é delegada da UBT de Vinhedo e... é mãe do Dennis e da  Natalie. Você se considera uma pessoa super organizada ou vai enfrentando os desafios à medida que eles vão surgindo?
Só quero acrescentar que foi muito prazeroso participar deste Vice-Versa com você.  Obrigada e um beijo, minha querida!

R - Risos. Eu era muito organizada. Fui secretária executiva por muitos anos. Hoje dou mais importância ao momento. Entre organizar papéis e escrever um texto, prefiro escrever um texto. Por outro lado, se houver muita bagunça eu não consigo me concentrar, primeiro arrumo tudo. O difícil é organizar a agenda. Vivo com listas na bolsa: reuniões, contas, compras, concursos, horários dos filhos... Faço uma por dia. Eu acredito que me ajuda muito o fato de ser prática. Faço tudo online ou por fone, desde pagar contas até compras no Brasil e exterior, raramente vou ao shopping center. Tenho quem me ajude em casa, transporte escolar, motorista de táxi de confiança para meus filhos em caso de necessidade, médico, veterinária, tudo “entre amigos”.  Talvez por morar no interior seja mais fácil ter esses contatos. Por outro lado, minha família mora a 100 km daqui, tenho que ter tudo sob controle. E sobram as madrugadas para escrever!

O prazer foi todo meu! É muito bom termos um blog onde podemos conhecer melhor nossos companheiros. Obrigada e um beijo no coração!

Regina Sormani

Perguntas de Simone

1 - Regina, você respira literatura há muito tempo. Como surgiu o projeto Teatro nas Escolas e Bibliotecas? Quais atividades são desenvolvidas nele?

R – O projeto Teatro nas Escolas e Bibliotecas surgiu quando lancei o livro interativo O OVO AZUL DA GALINHA ROSA pela Paulus  e a International Paper, na época,  se interessou em patrocinar o teatro de bonecos. O sucesso da galinha Rosa, da Perua e do ovo Azul foi imediato. Durante vários anos, o teatro percorreu muitas escolas e bibliotecas da capital e interior, sempre contando com a participação de ótimos atores bonequeiros e contadores de história.  O primeiro a surgir no palquinho era o boneco Chamequinho que cantava o jingle que criei especialmente para ele. O patrocínio acabou, mas, o teatrinho continua muito solicitado e hoje em dia, apresentamos muitas outras histórias. Os BICHINHOS DO ZOOLÓGICO  peça adaptada do livro das Paulinas, é uma das mais pedidas pelas escolas.

2 - Você e o Marchi têm uma sintonia rara. Como foi a criação do boneco Chamequinho? É esse o seu projeto preferido, desenvolvido em parceria com ele?

R - A International Paper havia solicitado ao Marchi que criasse um boneco que realmente lembrasse uma folha de papel e que agradasse o público-alvo: as crianças. Então, o Marchi criou o Chamequinho parecendo um origami e que foi elaborado em aerografia. Os pequeninos adoraram!! A partir daí, o Marchi construiu um lindo boneco que  movimentava as mãos e  abria a boca.  Gravamos o jingle e o Chamequinho passou a ser o garoto propaganda da Internacional Paper, pois falava e cantava, para alegria da criançada. Ficou perfeito.
Posso afirmar, com certeza que o Chamequinho foi um dos melhores projetos que conseguimos concretizar juntos.

3 - Tenho acompanhado o Trovadores.com, publicado na revista Primavera em Sampa, e aproveito para parabenizá-la! Qual foi a reação dos leitores? Quais outros temas a revista aborda?

R - O Trovadores.com – nome criado pela Angela Leite – está sendo muito elogiado, é verdade. O número de trovadores aumenta a cada dia e aproveito o espaço para convidar a todos que gostem de trovas : – Venham trovar conosco!!!
A revista publica contos, crônicas, poesia, arte, música de vários gêneros, divulga livros e lançamentos e a cada mês homenageia um autor.

4 - Os jovens estão sedentos de boa literatura. O que você pode nos adiantar a respeito do livro que está escrevendo com o Marciano Vasques para esse público?

R - Simone, o livro está pronto, até que enfim. É um thriller, escrito a quatro mãos  e duas cabeças... rsrs... suspense e mistério para o público juvenil, ambientado aqui, em São Paulo. Deverá ser lançado em 2012, assim esperamos.

Fonte: http://aeilijpaulista.blogspot.com.br/2011/12/viceversa-de-dezembro-de-2011.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Décimo-terceiro mês


UM FELIZ DEZEMBRO, AMIGOS! 
Chegou a hora de limpar as gavetas, encontrar as toalhas de praia, participar de dois eventos de final de ano por dia, entregar projetos, passear com as crianças, comer em bons restaurantes pela metade do preço - salve o prato do dia - , escrever a carta para o Papai Noel, mandar mensagens coloridas, comprar presentes e o mais importante de tudo, encontrar aquela pessoa que você ama e que está esperando sua visita desde janeiro... O ano precisava ter treze meses!

Fábula: O aniversário da cegonha

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Em 2012...

No calendário dos adultos o ano tem 365 dias. No calendário das crianças, um ano tem 365 histórias, - com começo, meio e fim -. Cada dia na vida de uma criança é importante e determinante na sua formação. Um conflito, uma vitória, uma lágrima, um sorriso... Cada emoção ficará marcada para o resto de sua existência, servindo de base para decisões futuras, atitudes e comportamentos. Nesse processo, o papel dos pais, avós e professores é fundamental para mostrar o norte da razão. Não podemos permitir que nossos pequenos se percam pelo mar da vida. 2011 está se despedindo, mas deixou pegadas nos corações de todos nós. O futuro começa em nossos lares, com as nossas crianças. Em 2012, dediquemos o máximo de tempo disponível a elas. Crianças precisam ser cultivadas como um bonsai, com muito carinho, dedicação e cuidados: aparando as arestas quando necessário... Mas sempre com amor!

sábado, 26 de novembro de 2011

Delete!


Todo mundo sabe que a cada dia inventam um novo aparelho necessário para a nossa sobrevivência. Eu sou daquela época em que televisão colorida era o máximo. Telefone era um luxo. Os jovens de hoje cresceram com a tecnologia e encaram os mais sofisticados softwares com uma naturalidade que acredito nunca terei. O vestibular da UNICAMP desse ano usou termos cibernéticos para a prova de redação: "arquivos nas nuvens", "verbete digital" e comentário em blog. Não adianta procurar no Aurélio porque ele nunca ouviu falar nisso.

Como tudo que é novo e desconhecido, não dominamos todas as características dessas novas relações tecnológicas e humanas. As redes sociais crescem e se multiplicam de forma assustadora. E com elas, a falta de privacidade.
Acompanho jovens pelo Facebook e o já quase aposentado Orkut. Muitas vezes tenho vontade de gritar – quero dizer, digitar em caps lock – DELETE!

Desenvolveram filtros para imagens pornográficas e antivírus, mas não existe ainda um “anti-besteirol”. Vejo comentários de pessoas que literalmente lavam a roupa suja na frente de centenas ou milhares de amigos virtuais. Fotografias que ultrapassam os limites do público e escancaram o privado de cada um.

Já sabemos que ladrões gostam de sites de imobiliárias para escolher casas, redes sociais para escolher quem sequestrar, descobrir o nível econômico e lugares que a vítima frequenta. Meninos avaliam meninas na vitrine virtual através de fotos que contam muito mais que os aspectos físicos. Meninas avaliam meninos como se escolhessem um novo sapato. Tenho amigos que encontraram o amor eterno em sites de namoro, comprovando que existe, sim, um lado bom.

O problema é que crianças e jovens nem sempre têm condições de avaliar o risco dos relacionamentos virtuais, colocando em perigo sua integridade física e moral, no pessoal e profissional.

Se fosse bem usada, a internet seria uma ferramenta educacional que ajudaria a humanidade a evoluir cem anos em cinco, divulgando informações úteis, criando networks com pessoas interessantes ou fortalecendo elos entre amigos. Eu lamento saber que muitos – principalmente jovens - são visitados por futuros empregadores, que depois de conhecer o lado menos formal do candidato, o eliminam sumariamente. Currículo é coisa do passado. Hoje precisamos de cursos para aprender vender nosso trabalho através de sites, blogs e redes sociais.

Uma dica útil é lembrar que nesse caso o passado é mutável. Ninguém precisa deixar um histórico virtual com comentários impensados ou fotos deselegantes. Também não caia em tentação de criar um personagem. Seja você mesmo, apenas uma versão “zip”: compactada! Deixe para abrir todos os seus arquivos apenas com os realmente íntimos. DELETE!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Instintos atávicos


Durante algum tempo, todos os dias, eu recebia a visita de um bando de macaquinhos, que vinham pela hora do almoço, comer bananas e maçãs.

Eles vêm lá da Anhanguera todas as manhãs,  chegando ao condomínio por volta das sete horas. Costumam frequentar uma praça, depois alguma casa, e estão sempre trocando de “restaurante”. No final do dia retornam por onde vieram e desaparecem como malabaristas, equilibrando-se pelos fios elétricos sem segurar um guarda-chuva.

Semana passada, alguns retornaram. Os adultos, sempre mais atrevidos, logo desceram e vieram pegar as frutas das mãos da minha filha, enquanto os jovens, adolescentes típicos, ficavam um pouco distante, frisando a sua recém-adquirida independência. Observando os saguis que chegaram voando de uma árvore à outra, mesmo sem asas, percebemos que um estava doente, com o pelo todo levantado e caroços pelas costas. Quando desceu para comer, vimos que eram dois minúsculos filhotes, agarrados às costas da mãe como se dois carrapatos fossem. A alegria da minha filha foi contagiante! “Dois bebezinhos, dois bebezinhos!”, gritava ela. Imaginei como seria eu caminhar o dia todo com dois bebês agarrados às minhas costas. Subir e descer escadas. Entrar e sair do carro. E lá estava ela, a orgulhosa mãe, saltando de uma árvore à outra, enfrentando desafios, procurando outros lugares para se alimentar sem tanta competição. Pensei no amor de mãe (e pai).  O que somos capazes de fazer por nossas crias. Viramos malabaristas,  voamos sem asas, enfrentamos perigosos seres e os defendemos até do Minotauro. Coroando esse santo amor, vem a total desnecessidade de reconhecimento. O importante é vê-los feliz. Por eles, vendemos bens, mudamos de casa, cedemos a sonhada viagem, trocaríamos a saúde, se possível fosse. Não queremos ser venerados por nada, é nossa a necessidade de fazer o máximo que pudermos. Se retribuírem um milésimo do nosso afeto, já nos sentiremos rainhas (ou reis).

É a natureza, a essência da vida, o que dá sentido à nossa existência. E a macaquinha sabe disso. Desagregou-se do grupo, provavelmente para evitar o ataque de algum macho indelicado ou de uma fêmea enciumada. Desbravadora, seguiu os instintos atávicos. Enquanto se dedica às novas vidas, não se esqueceu, mesmo a distância, dos jovens filhotes, ainda se certifica que estão bem e alimentados. Exatamente como nós, quase humanos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Ave Maria



O meu sonho sempre foi ser freira. Chamar-me Maria. Mas nasci com asas, sem ser anjo. Posso me aproximar de Deus de outra forma. Consigo subir até Sua casa.

Antes de a noite acordar pela manhã, as irmãs libertam a respiração do convento pelas janelas: “Tum-tum”, “Tum-tum”, escuto o coração do convento pulsando em reza. Ah, se não fosse ave, seria freira! Como é encantador ouvir os passos delas flutuando pelo piso frio do convento, como se voassem, sem abrir as asas. Logo começam as xícaras a tocar piano e eu sinto o aroma de café.

O convento é um grande ninho onde moram anjos em forma humana. Gosto de sobrevoar os telhados e sentir o calor que irradia pelas suas janelas. O próprio sol visita as suas dependências e depois se esparrama pelos seus pátios e frestas. Fico tão emocionada, que arrulho de encantamento.

Às vezes, sinto saudade do cheiro verde das matas e voo até lá. Como é extasiante sentir odores tão diferentes! A maresia, que salga as narinas. O café quente do convento. Os perfumes de banho dos humanos que andam de um lado para outro, como formigas trabalhadeiras. Sou mesmo uma ave privilegiada, testemunho a história desse povo todos os dias. De um lado, as doces beatas; do outro, o salgado mar de botas molhadas. O vento traz  folhas da mata, que acariciam os rostos dos homens. O chafariz respinga lágrimas de felicidade desse solo abençoado.

Outro dia, muitas nuvens se aproximaram do convento. Extasiada, deitei-me sobre o telhado e permiti que as águas doces me banhassem de todas as minhas decepções. Eu aceitei quem eu era. Como havia pessoas humanas e animais, havia eu, ave. Tantos similares e tantos diferentes, convivendo com árvores e mares, chuvas e risadas. Únicos e realizados. Filhos da natureza. Pais de nossos sonhos.

Eu sempre quis ser freira. Mas nasci ave. Acho que a vida foi muito generosa comigo. Não sou uma pomba qualquer. Sou uma ave brasileira, alegre como uma cigana, viajando entre o mar, a mata e a cidade, em um tapete mágico movido a vento. Sou uma ave maravilhada. Sou uma ave dessa terra santa.

domingo, 13 de novembro de 2011

iAfter ou A revolução na comunicação intermundos - por Zé Zuca

Se há alguém que pode revolucionar esta comunicação, este alguém é Steve Jobs

Não conheço ninguém que tenha se comunicado de forma moderna e eficiente depois de partir para outra dimensão.  Todas as possibilidades estão no campo da religião e não são aceitas como fato comprovável. No caso mais conhecido de  comunicação do outro lado para cá, ou daqui para lá,  é necessário utilizar o corpo de outro. Embora eu acredite, convenhamos, é uma manifestação algo deselegante e meio assustadora.

Mas esta incomunicabilidade pode estar prestes a acabar. Se há alguém que pode revolucionar o paradigma desta comunicação este alguém é (ou era) Steve Jobs. Já pensou? O mundo tem quatrilhões de anos e, em todo esse tempo, não surgiu qualquer ferramenta que permita a comunicação com nossos queridos que passaram para o outro lado ou deles com a gente. Já pensou se o Steve criar uma?

Poderia ser uma espécie de communicator device after death. Claro que ele sintetizaria, chamando,  possivelmente,  de iAfter. Um aparelho sofisticado, fino, bonito e amigável que permitiria o contato entre os daqui e os que foram para além da morte e vice-versa. Venderia muito mais do que a Aplle vendeu os iPhone, iPod e iPad juntos. É incalculável o número de pessoas que vivem lá e aqui (só aqui, 7 bilhões) que se beneficiariam deste tipo de comunicação. Imagina só: Você está ansiosa em sua casa, sentindo uma falta danada daquele seu melhor amigo que se foi. De repente o aparelhinho toca, enchendo o ar de esperança e alegria. É ele. O papo rola descontraído com uma qualidade de som impressionante, como se o amigo ou amiga estivesse aqui no Rio de Janeiro. De certa forma estaria mesmo. Com uma super webcam lá e cá você poderia ver se seu amigo estaria mais gordo ou mais magro, se entre nuvens, num quarto ou num paraíso.

Jobs, naturalmente, vai necessitar de um tempo para estudar a situação, montar uma equipe multidisciplinar muito criativa e entender as reais necessidades das duas clientelas. Vai precisar também conhecer as disponibilidades do além. De que material seria o iAfter? Que facilidades ofereceria aos comunicadores multidimensionais? Bastaria um toque num ícone ou seria necessário acessar uma espécie de Internet celestial? Vai que ele crie um teletransportador e traga a pessoa ou o espírito ao vivo ou leve alguém por algumas horas pra bater um papinho no além?

Calma aí. Por outro lado, não falta quem aposte que Steve Jobs estaria se surpreendendo por lá, embasbacado com o que encontrou: nenhuma necessidade de maquininhas para se contatar. Comunicação telepática, mente a mente,  em alta velocidade, memória ilimitada. E mais, teletransporte de um lugar para o outro, usando apenas a vontade. Viagens rapidíssimas para qualquer lugar, encontrando, em segundos, quem o pensamento quiser. Jobs estaria constatando que, por lá, todos os aparelhinhos que ele inventou aqui na Terra  são desnecessários. É só pensar e chegar.  

Espera aí. Mesmo que no outro mundo a comunicação seja moderníssima, nunca ninguém veio pessoalmente aqui depois de partir, assim como ninguém foi lá, bateu um papinho e voltou. É aí que entra o velho Steve. Depois de um tempo de perplexidade, com sua capacidade criativa perceberá que ainda há espaço para suas invenções. E vai agir rápido. Não vai esperar que uma fatalidade possibilite a concorrência de um Bill Gates. Afinal ele chegou primeiro. Vai querer, certamente, criar algum mega dispositivo para o progresso das comunicações intermundos. Por que não o iAfter? É só uma questão de tempo.

O desafio está lançado. Façam suas apostas. Os universos nunca tiveram uma chance como esta de terem uma revolução nos contatos interdimensionais. É só esperar para receber, em breve, a comunicação do primeiro grande lançamento. Certamente, em cadeia planetária de TV, invadindo todos os computadores,  em uma aparição quadridimensional espetacular entre nuvens no céu: calça jeans, camisa preta de gola rolê, ele, com algo muito desconhecido nas mãos, o próprio Steve Jobs. 

Zé Zuca

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Juegos Florales - Uruguay - 2011


LOCA TRAVESÍA

Venga,
que yo lo espero,
lo espero sin prisa
Venga tranquilamente...
Sepa
que en la falta de prisa
existe una loca urgencia
de matar mi sed
en sus aguas calientes
sentir su sal
mezclada con la mía
navegar en su proa
por mares enloquecidos
enfrentando alturas
y súbitos descensos.
Venga,
Pero venga sin miedo,
sepa
que mi mayor ansia
es caminar por la playa
pies descalzos en la arena
y manos entrelazadas.
Ya conocí el mundo
y descubrí que no importa
la belleza de los mares
si el corazón fuese ciego.
SIMONE PEDERSEN

LOUCA TRAVESSIA

Vem,
que eu o espero,
O espero sem pressa
Venha calmamente...
Saiba
que na falta de pressa
existe uma louca urgencia
de matar minha sede
nas suas águas quentes
sentir o seu sal
misturado ao meu
navegar na sua proa
por mares enlouquecidos
enfrentando alturas
e súbitas descidas.
Vem,
mas venha sem medo,
saiba
que o meu maior anseio
é caminhar pela praia
pés descalços na areia
e mãos entrelaçadas.
Já conheci o mundo
e descobri que não importa
a beleza dos mares
se o coração for cego.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um poema em cada árvore



Lilly Araújo disse...

Que legal,

Também entrei nessa seleção. Legal demais ficar na natureza estampada né?
sexta-feira, dezembro 02, 2011 4:52:00 PM

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Palestra de Dalai-Lama no Anhembi – 17/9/2011


No sábado passado, dia 17 de setembro, tive a oportunidade de sentar-me com milhares de pessoas no Anhembi para receber Sua Santidade, Dalai Lama, ovacionado por um público heterogêneo e pleno de respeito pelas palavras do líder religioso do Tibete.

Durante duas horas, Dalai Lama falou, ensinou, sorriu, brincou com o público, riu e tomado de seriedade fez perguntas à platéia sobre a desigualdade social, religiosidade e corrupção no Brasil. No final, encerrou dizendo que iria embora naquela noite, mas cada um de nós que ali ficaríamos, ainda teríamos os mesmos problemas, e que talvez, apenas talvez, se refletíssemos sobre o que foi conversado naquela manhã, pudéssemos encontrar uma saída. Humilde assim. Talvez. Apenas talvez. Mas a verdade é que se os seres humanos seguissem sua pregação de ética e tolerância, seguramente todo o mundo seria outro.

Dalai lama não procura converter ninguém. Ao contrário, disse que muitas são as religiões que transmitem ferramentas e ideias de paz no mundo. Completa, que mesmo o secularismo não é errado. Teísta ou não, praticante ou não de uma religião, existem conceitos universais que devem ser praticados por todos. Que existem diferenças entre as pessoas, mas que fundamentalmente somos todos iguais. Para ele, religião é uma questão de foro íntimo e deve ser respeitada, assim como a falta de uma. Os valores do homem encontram-se na ética e na sua moral, e não nas suas diferenças, sendo a religião apenas uma delas.

Segundo ele, hoje existem grupos de estudiosos na Ásia, Europa e Canadá, pesquisando a melhor maneira de incluir os ensinamentos de ética e boa conduta desde os primeiros anos escolares.  Enquanto isso não se concretiza, afirma que a família é responsável por esses ensinamentos, através de incansável repetição de bons exemplos. Inúmeras vezes ele se referiu à educação como a melhor forma de evolução moral e social. Disse, quando perguntado no final a respeito do Mal, que o Mal é a ignorância, e aconselhou que as pessoas buscassem respostas nos livros antes de confiar nos conselhos de outras pessoas. Que os livros trazem ensinamentos milenares de grandes personalidades da humanidade, assim como, obviamente, alertou contra o risco de a espiritualidade ter se tornado um comércio lucrativo. Sugeriu que antes de escolher uma religião, façamos como quem compra uma maçã na quitanda: investiguemos o máximo possível para escolher a melhor. Nesse caso, a investigação seria através de grandes escritos deixados no mundo. Afirmou que existem várias realidades, por isso é importante procurar conhecer a todas. Contou que esse ensinamento é de um líder religioso do século XI, e buscando respostas nas fontes evitaríamos adotar a resposta errônea de outra pessoa. Que cada um tem uma religião – ou nenhuma – que se adapte melhor às suas características mentais e emocionais.

No início, Dalai Lama falou sobre desmilitarização e paz mundial, passo a passo. Dos continentes e países chegou ao ser humano, dizendo que o primeiro passo é o desarmamento de cada um de nós.Que nossas armas – ódio,raiva, medo, insegurança, ambição – são o que levam o mundo ao caos. A felicidade, segundo ele, está na sabedoria de limitar a ambição dentro dos parâmetros da possibilidade, do que é real e passível de conquista, evitando assim a frustração. Disse ainda, que frustrados, temos medo, somos inseguros e portanto infelizes. Que a paz interior está exatamente na satisfação de viver plenamente nossas vidas, alcançando o que nos procuramos. E para tanto, não adianta ambicionar algo muito além ou que nos traga intempéries emocionais.

No final da palestra, Sua Santidade explicou a diferença entre tolerância e permissividade. Disse que ser tolerante significa olhar para seu inimigo com compaixão, sem submeter-se ao seu erro. Pois permitir que o inimigo continue errando sem opor-se a ele, é um erro grave. Por outro lado, toda oposição deve ser pacífica (como dizia Gandhi), e o foco deve ser o pecado e não o pecador (como ensinou Cristo). Repetiu que o inimigo é nosso mestre e devíamos agradecê-lo, porque na vida, a maior virtude de um homem (segundo o budismo) é a paciência. E paciência tem que ser exercitada. Os budistas passam anos exercitando-a. Concluiu que nossos inimigos são apenas mestres que aparecem em nossa vida, provocando um momento de desequilíbrio em nossa existência e nos dando a oportunidade de praticar os conceitos de tolerância e paciência.

Saímos do Anhembi com muito em que pensar. Ali estava um homem que havia falado com renomados cientistas e empresários poderosos no dia anterior, com a mesma tranquilidade que uma criança quando brinca no jardim. O que mais me impressionou foi conhecer uma pessoa feliz. O seu sorriso e bom humor constantes são sua marca registrada. Tenho certeza que ele se desmilitarizou há muito tempo. Para ele, a corrupção é um câncer na humanidade e a educação é mais importante que a religião. Pois sem ética, nunca atingiremos uma universalidade, um povo mundial sem fronteiras e desigualdades. Uma raça humana unida. Quem pode discordar dele?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A cegonha que voltou

Houve apenas um disparo e a cegonha caiu ferida na asa. Não foi apanhada pelo caçador porque um homem bom a socorreu primeiro. Dela cuidou até que o ferimento desaparecesse, mas ela ficou inválida para voar. Seu parceiro, a fiel cegonha com quem viajava todos os anos da Croácia até a África do norte, ficou atordoado com a nova situação. Sabia que o inverno o aniquilaria. Não tinha entendimento de que o bicho-homem que a aprisionou cuidaria dela no inverno e faria um novo ninho a cada primavera. Assim, com o peso da mão da mãe natureza, se foi em busca de sobrevivência em outro continente, atravessando 13 mil quilômetros de intempéries e desafios.

Mas voltou. Voltou e procurou por ela, sua Malene, sua cegonha esposa, que ficara para trás um ano antes. E quando a encontrou, jubilando de alegria, a ela se aninhou, e dela cuidou, trazendo alimento, cobrindo-a com seu calor, cuidando dos ovos e caçando para os filhotes, sem ela.

Há nove anos essa história se repete. Ela espera. Ele volta. Ele cuida dela. Ela alimenta-o de amor. Eles procriam. E quando a hora chega, ele parte e ela se recolhe.  Enquanto isso, pessoas-cegonhas procuram por pares e, ano após ano, enfeitam ninhos e ensaiam danças com suas asas coloridas. Esquecem que uma cegonha é apenas mais uma cegonha; que nada pode ser comprado ou simulado para atrair um parceiro de volta após um inverno cortante, senão a união de almas; que, como o vento, o amor somente é visível aos olhos do coração; que o amor verdadeiro é mais forte que toda e qualquer dificuldade; que é na hora da doença que se descobre o quanto somos amados – não nas horas de verão e fartura. Nessas horas, muitas cegonhas se aproximam. Mas somente uma será a escolhida e insubstituível.

Após ensinar os filhotes a voar, sob a observação da atenta cegonha mãe, o pai, Rodan, os guiará até a África. Ela, Malena, mãe, novamente sozinha, padece da maior dor do mundo, a de ser prisioneira da crueldade humana. Impossibilitada de cuidar da prole, chorará a despedida até perdê-los de vista.


Até quando o homem será a maior das bestas, aquela que caça por prazer de comer sem fome, ou para apreciar uma bela espécie tristemente vivendo sem liberdade, ou, ainda, para observar o sofrimento de um ser vivo?


francis disse...
Lindo Simone !
Uma história de amor que, infelizmente já não mais se encontra entre os homens.
terça-feira, setembro 06, 2011 11:32:00 AM

domingo, 24 de julho de 2011

A bailarina notívaga

Todos os dias, quando a noite cobre o sol com sua capa negra, Sofia, uma poodle de catorze anos de idade, aguarda a pontual visita de uma osga. Ela vem dançando pelo vidro da janela da sala. A cachorra rebola o rabinho e dá boas-vindas à bailarina notívaga.


No início, ela latia e tentava pegar a novidade. Mas novidades, com o tempo, tornam-se rotina; e assim, inteligente e resignada, ela hoje se alegra com a chegada da antes inimiga. Eu também me afeiçoei por essa bichinha acrobata. Se me dissessem antes que alguém gostava de um réptil, eu riria debochada. Com os anos, aprendi que tudo tem sua beleza, até uma albina miniatura de jacaré.


Nessas noites quentes de verão em erupção, tenho aberto a vidraça. A lagartixa surge encantadora como uma noiva em seu branco vestido bordado com estrelas cintilantes e comprido véu dançante, descansa na lateral aberta, mas não adentra. Nós duas sabemos que para coexistirmos em paz temos que respeitar limites.

Em alguns meses, mudarei de casa, na mesma cidade. A distância de poucas ruas será uma muralha chinesa entre o antigo e o atual ciclo de vida. Um divisor de eternidades. Sei que sentirei falta da diária visitante, a quem batizei de “Oito Horas”. Quando os ponteiros anunciarem o espetáculo da pequena bailarina, estarei tão perto ainda, mas impossibilitada de assistir a ela.

Não ouvirei mais os latidos conhecidos, a voz do jardineiro do vizinho, cujo exemplo de vida, vencendo doenças e inúmeros aniversários, me sorria bom-dia. E Carlos, o carteiro, que tantas alegrias, notícias e pacotes de conhecimento me trouxe... Será que um dia o encontrarei pelos caminhos futuros? Será que, com o passar do tempo, de imensos sorrisos e acenos afeiçoados, apenas nos cumprimentaremos com um levantar de esquecidas sobrancelhas? Outras lagartixas talvez morem na nova casa. Mas são apenas “outras”. Cada vez que eu vir uma delas, lembrar-me-ei de Oito Horas, que fez parte da minha vida.

Ela simbolizou uma era, um período de infância de meus filhos, que, exaurido, só trará cores aos retratos em preto e branco na estante das lembranças vividas. Outros endereços virão em nossas vidas. Será que ainda seremos os mesmos, como cantava Elis, quando nossas histórias forem empacotadas e levadas de caminhão? E quando o passado virar mais uma página em nossas biografias de papal amarelo?

Nenhuma casa, por maior ou mais bonita que seja, tem o poder de colorir nossa história como a casa onde vivemos a infância. Um dia meus filhos se recordarão de passagens nesse lar. Sofia não mais estará aqui nem Oito Horas. Talvez nem eu, nem você. A natureza é assim, precisa fechar um ciclo para iniciar outro. Precisa da morte para começar uma nova vida.

Mas as lembranças da infância, do amor vivido entre quatro paredes, dos filhos que nunca crescem, do melhor amiguinho do filho que sempre chorava de madrugada porque queria os pais, da primeira boneca da filha, do dia em que eles aprenderam a andar de bicicleta, da procura desesperada pelas pegadas do coelho da Páscoa, da esperança na fada que troca um dente por um brinquedo, da gargalhada quando soltavam balões coloridos e os viam voar até as nuvens de algodão... Ah, essas lembranças são eternas.


AikiNada disse...
as vezes me pego a pensar em como nos afeiçoamos fácil, a coisas/lugares/pessoas que a outros olhos podem não fazer sentido nenhum. Tudo porque o objeto da afeição é algo muito pessoal. Justamente porque nos recorda, servindo de marcadores do tempo que já se foi.
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Não tenho uma "oito horas" em minha vida, mas entre os muitos novos seres que descobri ao vir para Portugal, um dos meus preferidos é a osga :)
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Nunca tinha visto uma antes. Muitas "lagartixas" & "lagartos", mas nenhuma osga.
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No caminho para o trabalho, há um muro de pedras, com um canteiro em baixo. Nos dias de sol, pela manhã, quando me dirijo à estação de comboios, vou sempre a olhar, pois ali sempre há osgas e lagartixas a tomar sol. Por vezes paro e fico a admirar essas criaturinhas.
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Desejo que a mudança, se inevitável, lhe traga novas boas recordações :)
sexta-feira, julho 29, 2011 12:22:00 PM